Lázaro

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


por João Bosco Bezerra Bonfim

Aos quinze dias do mês de agosto de 2002, sem que tivesse intenção ou plano, Lázaro entrou no Bar do Afonso. Às vinte e três horas e quarenta e sete minutos, do dia quinze de agosto de 2002, distraidamente, Lázaro entrou. Na galeria, entre a rua do hospital e a rodoviária, o bar servia de passagem a tantos e tantos que iam e vinham e até a muitos que só iam e não vinham. Não era sede ou fome ou qualquer falta física que o levasse a buscar água, chopp, cerveja, uísque, gim, limonada, refrigerante, café, chá. E foi mais para disfarçar esse despropósito, essa falta de propósito, que pediu vodka. Às vinte e três horas e quarenta e oito minutos, do dia quinze de agosto de 2002, despropositadamente. Era tão natural pedir vodka como água mineral com ou sem gás. Uma e outra não seriam bebidas e apenas lhe serviriam de anteparo enquanto ficasse ali, encostado no balcão. Às duas horas e três minutos do dia 16 de agosto de 2002, enfumaçadamente. Mais alguma coisa? O olhar com que respondeu àquela pergunta, um tanto entre o sim e o você não teria nunca em seu estoque o levaram a mais um pedido estúpido: absinto. Como? Não, não teria absinto no Bar do Afonso. Que sorte. Vai que tinha e era caro e ele ali talvez não tivesse nem para aquela vodka que o mirava chamativa. Às três horas e quarenta e um minutos, do dia dezesseis de agosto de 2002, pausadamente. Fazia aquelas ondulações que vodka faz. E cheirava. Como cheira, vodka. Quem foi que disse que vodka não cheira? Conversa de bêbado. Às quatro horas e treze minutos, do dia dezesseis de agosto de 2002, resignadamente. E decerto seria por bêbado que o tomariam, pois foi ficando com a cara avermelhada de tal modo que, àquela altura, aquela seria a décima dose de vodka. E só o garçom (seria ele o Afonso? Sempre se perguntara quem seria o nome do estabelecimento, quem a pessoa que lhe emprestava nome. Como seria o Afonso? Teria um Afonso? Drogaria Dafne. Quem seria a Dafne? A dona da drogaria, a filha morta? Uma secreta amada, agora morta?). Às oito horas e um minuto, do dia dezesseis de agosto de 2002, despertamente. Funerária Santo Expedito. Seria o dono? O pai do dono? Seu Expedito está? Quero falar com ele. Não, seu Expedito não estaria. Não trabalha aqui, não. Às nove horas e quatro minutos, do dia dezesseis de agosto de 2002, perfumadamente. E a floricultura? Floricultura Estela? Qual o preço da coroa, D. Estela? D. Estela não está. A coroa é tanto. E o cravo? Tudo isso? Nunca estava. A dona Estela. E o cartório? Às dez horas e dois minutos, do dia dezesseis de agosto de 2002, pontualmente. Maurício Lemos. Seu Maurício está? Não tem ninguém com este nome aqui. Às 17 horas e três minutos, capela 5, no São João Batista. O seu João está? Já foi. Só trabalha de manhã. É o Manel quem vai fazer o serviço. Mas aqui, é o bar do Afonso. Pelo menos aqui deve haver uma pessoa que corresponda ao nome: não, Afonso! quis responder íntimo. Quer falar com o Afonso? O Afonso não tá aqui. E falou que não era para fiar para ninguém na ausência dele. Ah, que bom. Já não bastava agora ser um bêbado. Era talvez um contumaz freguês. Daqueles que bebem e botam na conta. Sentiu quase um alívio em meio ao constrangimento. Pelo menos havia um Afonso. Não. Não era íntimo do Afonso. Nunca o vira. Mas ele existia. Mas não lhe era íntimo. Nem conhecido. Nem de vista, nem de chapéu. Mas ninguém mais usa chapéu. Prá falar a verdade, não era íntimo mais ninguém, agora. Nem conhecido. Era só ele. Lázaro. Num bar. O do Afonso. Com uma vodka em frente do nariz. Wyborowa, smirnowa, roscowwa. Que criatividade a dos fabricantes de bebida. Que nomes! Mais russos, impossíveis. E lhe faltavam pernas. Então ficou. Em pé, mesmo. Às vinte e três horas e quarenta e sete minutos. Até.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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