Sete mitos da criação e do autor literários

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


por João Bosco Bezerra Bonfim

la proferida dia 15 de abril de 2012, na Biblioteca Nacional de Brasília, por ocasião do  Seminário  Os Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Livro e Leitura: construções e desafios, na Mesa-redonda “Criação, publicação e divulgação da literatura”

 

Bom dia, minhas Senhoras,

Bom dia meus cidadãos.

Sei que o Seminário é sério

Perdoem-me a confusão,

Se venho falar em versos

Frutos da imaginação.

 

 

 

 

 

Esse mundo da escrita

Tirou sua vida dos mitos,

Compondo histórias e estrofes,

Sempre ricas em conflitos,

Mas por que é que o escritor

Com os mitos se põe aflito?

 

Não venho falar em números,

Que é do campo da estatística.

Prefiro falar em mitos,

Que condiz à classe artística,

Pouco afeita à política,

Pois pertence ao plano místico.

 

Sete mitos nos perseguem;

Em sete mitos vivemos.

E, neles, mais afundamos,

Quanto mais nós escrevemos.

Por isso, volto aos mitos,

A ver onde nos perdemos.

 

 

 

 

 

Primeiro mito: escritor bom e escritor morto

 

 

 

Do jazigo em que habita

O Machado de Assis:

Mandou-nos este recado.

Ouçam o que ele diz:

Escritor bom é defunto.

Se não, é um infeliz.

 

Esse mito, repetido,

Ano a ano nas escolas,

Não deixa nenhuma dúvida

E aos vivos só desola.

Se você ainda não morreu,

Não me venha com marolas.

 

Pra esse mito contribui

Nosso santo deus Mercado,

Que não se arrisca com o novo

E está sempre avexado:

Quer o lucro para ontem;

E o novo fica encalhado.

 

Nada contra a boa escrita

Que nos legaram os antigos:

Machado, Guimarães Rosa;

Gregório, Gonçalves Dias;

Cora, Cecília Meirelles;

Drummond e nossa Clarice.

 

Vida longa aos companheiros

Que alcançam ainda em vida

Reedições e direitos

Autorais a dar guarida

Ao trabalho criativo

Que lhes dá roupa e comida.

 

Mas essa é uma minoria

Que confirma a exceção:

Bom mesmo é autor morto

Que não cria confusão.

Sua obra é consagrada;

Não venham com inovação.

 

Esse mito leva o ente

A um tremendo paradoxo:

Ou fica vivo e escreve

Ou então morre de um troço.

Mas famoso não será,

Pois não entrou no negocio.

 

Segundo mito: escrever e coisa de gênio

 

A escrita de poesia,

A escrita literária

É coisa só de gênio

Não de pessoa ordinária.

Quem não nasceu com estrela

Perdeu a vida e a palavra.

 

Só um burro ia pensar

Que ficção se ensina;

Que poesia se aprende:

Todos sabem, de menino:

Romancista nasce feito,

Poeta é coisa de sina.

 

Esse mito poderoso

Mata toda a criação:

No Brasil não há escola

De poesia ou ficção.

E quem não nasceu sabendo,

É condenado à escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terceiro mito: escritor vive de brisa

 

Se a escrita é dom divino

Esse é o prêmio do escolhido:

Não queira ele dinheiro

Pelo livro bem escrito.

Vá viver só de poesia

Que é a vida mais bonita.

De preferência que doe

Uns livros e algum talento

Conte prosas, faça rimas,

E desconte cem por cento.

Já pagamos carro e vinho.

Poesia vem com o vento.

 

Quarto mito: todo dinheiro público ou privado para a criação literária é maldito

 

Não me venham com historia

De escritor chapa branca,

Que precisa de uma bolsa

Para escrever na bonança:

Não queira dinheiro publico

Para encher sua pança.

 

Bolsa é para os físicos

E químicos industriais.

Estes sim, é que são úteis;

Não como esses menestréis

Pois a arte verdadeira

Não demanda cabedais.

 

Quinto mito: literatura é um emplastro Brás Cubas: cura todos os males da escrita

 

Se você quer ser sabido,

Estudar pra ser doutor,

Leia contos de Machado

Que foi um grande escritor.

Não importa que seus contos

Falassem de amor e dor.

 

 

 

Para o vestibular

Que é o grande funil,

Leia Euclides da Cunha,

Que descobriu o Brasil

E é bom para engenheiros

Se não leu, o prédio caiu.

 

Esse mito perigoso

Nunca fez bem a ninguém:

Leitura não é trem útil;

Destina-se a outro bem:

Para a alma e a mente,

Da emoção que ali evém.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sexto mito: (só) a escola (somente) é capaz de mediar o letramento literário

 

Ler se aprende na escola

Todo o mundo ouviu falar

Esse mito é pegajoso:

Para a todos enganar.

Mas a poesia e a prosa

Quase nunca passam lá.

 

Na escola: biografias,

E escolas literárias,

História, sociologia

E fofocas ordinárias

Mas romance, que é bom,

Fica longe da seara.

 

 

 

 

 

 

Sétimo mito: todo livro nasce órfão

 

Esse mote quem me deu

Foi o escritor Léo Cunha

Poeta e professor

Que nos traz o testemunho:

Precisa ser adotado

O livro que vem ao mundo.

 

A estante da livraria

Só para livro de sucesso.

Escritor que não é filme

Prateleira não merece.

Se não for bestisséler

Na gaveta ele padece.

 

De sete mitos falei.

Muitos mais há neste mundo.

Não lhes trago a solução,

Pois não me chamo Raimundo.

Mas o caso é prá pensar,

Pois tem raízes profundas.

 

Despeço-me desta fala,

Pedindo a todos perdão,

Pelos mitos e as rimas,

Que derramei no salão:

A minha matéria é outra,

Vivo do que os versos dão!

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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