Os derivados do leite

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Os derivados do leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os derivados do leite

do poeta Bueno de Rivera

 

Os magnatas do leite
e seus filhos derivados
têm carne leve e tenra
dos lactentes.

A pele alva e acídula
a face sanguínea e túmida
como os queijos de corante.

A voz é pastosa
difícil como se a língua
conservasse ainda o gosto
e a graxa da manteiga.

O diplomata em Paris
é derivado do leite.
O catedratico enfático
é derivado do leite.
A cadeira na assembleia
é derivada do leite.
O chapéu cardinalício
é derivado do leite.
O ar governamental
é derivado do leite.

Os anéis de grau
são feitas do casco
reluzente das novilhos.

O automóvel de ouro
é derivada do leite.
O banco de caixa forte
é derivado do leite.
O consórcio dos mentores
é derivado do leite.
A mansão da lago azul
é derivada do leite.
As mulheres da mansão
são derivadas do leite.

Os derivados do leite
suam nas praias do Rio
um suor de soro aguado
e hálito de creme.

Odorico Bueno de Rivera Filho, mais conhecido por Bueno de Rivera (3 de abril de 1911, Santo Antônio do Monte, Minas Gerais ­- 25 de junho de 1982, Belo Horizonte). Recebeu o prêmio Othon Bezerra de Mello, da academia Mineira de Letras, em 1949.

Obras:

Mundo Submerso (1944)
Luz do Pântano (1948)
Pasto de Pedra (1971)

[Fonte: Antologia dos Poetas Brasileiros, organização de Manuel Bandeira e Walmir Ayala, poesia da fase modernista, volume 2, Editora Nova Fronteiro, Rio de Janeiro, 1996.]

 

A pequena resenha abaixo eu colhi do site da Global Editora, sobre uma edição de seus melhores poemas.

“Melhores Poemas, Global Editora, 2003 – 159 páginas

O nome é sonoro, harmonioso- Bueno de Rivera. Parece um poeta espanhol. Ou um daqueles burgueses altivos dos romances de Perez Galdós. Impõe um certo respeito. Na verdade, é uma invenção do mineiríssimo poeta cujo nome na pia batismal era Odorico Bueno, por sinal bem pouco poético. Descendente do velho tronco paulista que remonta a Amadeu Bueno, o tal que foi proclamado rei do Brasil, em 1640, nasceu quase três séculos depois, em 1911, em Santo Antonio do Monte, e faleceu em Belo Horizonte, em 1982. Bueno de Rivera pertence à geração de 1945. Quando lançou os seus primeiros livros – Mundo Submerso (1944) e Luz do Pântano (1948) – foi equiparado a outros jovens que se afirmavam, Lêdo Ivo, João Cabral de Melo Neto. A partir daí, calou-se, só lançando uma nova obra (Pasto de Pedra), em 1971. Os primeiros livros, de tendências surrealistas, refletiam, desde o título, um mundo submerso, subterrâneo, dessa luz difusa sobre as águas pantanosas do tempo, lembrando uma pintura de Salvador Dali ou de Max Ernst, conforme a observação de Affonso Romano de Sant’Anna no prefácio aos Melhores Poemas Bueno de Rivera. A crítica da época rasgou seda. Sérgio Milliet garantia que pela temática atualíssima, tanto a de participação como a de inquietação individual, assinalam seus versos um ponto mais alto na moderna poesia brasileira. Pasto de Pedra indica novas inquietações. É um livro de participação política, mostrando um poeta voltado para as raízes barrocas das Gerais, tentando entender as personagens da Inconfidência e a própria formação do estado, com um lirismo a que não falta a contida ironia mineira. Um ponto a assinalar na edição dos Melhores Poemas Bueno de Rivera é a inclusão de poemas inéditos, em número equivalente aos já publicados, revelando novas facetas desse bom poeta das Minas Gerais.”
Twitter Digg Delicious Stumbleupon Technorati Facebook Email

About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

2 respostas para “Os derivados do leite”

  1. CEZINON PEREIRA DOS SANTOS 3 de março de 2013 em 8:40 pm

    Olá, Bosco, gostei da Obra, todavia gostaria mesmo é de saber onde posso encontrar a obra de João Cabral de Melo, que fala do personagem que optou por mudar de sua terra natal quando foi nomeado para um cargo politico na cidade.

    ATT, zenon

  2. Oi, Cezinon
    Vou pesquisar. Mas não tenho memória disso.
    Abraçõs,
    Bosco

Deixe uma mensagem