O canto do Poty

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


 

 

I
Ribeirinhos do rio sagrado
Beiradeiros do Rio Poty
Já se escoam na areia tuas águas
Ribeirinhos, meus cantos ouvi!
No sertão, a Acauã deu um grito
Medonho riso desses de espantar
Marmeleiros tremeram seus galhos
E Acauã começou a gritar.
Salto em susto da rede espichada
Alarmado, as caveiras eu vi
Relanceavam com as foices em riste
Ao pescoço, ameaças senti.
Já assoma a visagem monstruosa
Fera cobra, olhos de tição
Chareleia um chocalho estridente
Treme a língua que é só maldição.
Sem palavras, me sobe à garganta
Coração, mil batidas senti
Gela a espinha com a voz asquerosa
Tremeroso o terror pressenti.
Bicho alado já foi rastejante
Ribeirinhos, a cobra eu vi
Padim Ciço, me acode da praga:
Ribeirinhos, tal monstro eu vi.
Ribeirinhos do rio sagrado
Beiradeiros do Rio Poty
Já se escoam na areia tuas águas
Ribeirinhos, meus cantos ouvi!

 

II
Porque o sono profundo, Romeiro
Eis a Cobra, tremente a falar:
O teu sono é curto e a vida
Já e já vai de toda expirar!
Olha o céu, e as queimadas de roça
Envermelham o sol a embrasar
E o Acauã em agouro sombrio
Tu não viste a seca anunciar?
Não sentiste das pedras o fogo
A caatinga todinha a arder
Estás cego ou te falta o olfato
Que não sente o rio se perder?
E tu dormes, lasso Romeirinho
Padim Ciço te veda o sonhar
Mas, na rede o Romeiro se esquece
Que o Poty não demora a secar!
Fica atento, Romeiro perdido
São Francisco já vem te avisar
Canindé não te salva da praga
E o Bonfim já te nega o altar.
Ribeirinhos do rio sagrado
Beiradeiros do Rio Poty
Já se escoam na areia tuas águas
Ribeirinhos, meus cantos ouvi!

III
Dias D’ávila o sertão pôs em chamas
Da Bahia seu terço aí vem
Queima angico e imburana de cheiro
Mata-mata com esforço de cem.
O império da Casa da Torre
Queima as serras, a rama o cipó
Seca os rios pra o pasto do gado
Quer as carnes e o couro e só.
Cadê a outrora Príncipe Imperial
Com o Poty, vasto rio caudal
Suas enchentes fertilizem solos
Matam sede de todo animal.
Oh Poty quando foi que deixaste
De escorrer de tuas cabeceiras
Por que voam garças e socós
Por que seca ficou tua ribeira?
Não adianta karatuis chamar
Nem batata, nem índio socorreu
Nem piranhas, que estas querem água
Vê que a vida na areia se escorrer.
Não te enganes com apito de trem
Esqueça o ouro branco algodão
Oiticica canaúba e sua cera
Se o Poty se esvai no sertão.
A glória de Prestes se apaga
Dom Fragoso não vem te salvar
Oh Poty onde ficaram tuas águas
Já não ouço cachoeiras roncar.
Sete secas não foram capazes
De beber tuas cacimbas de areia
Mas queimadas do verde mofumbo
Evapraravam da caatinga a seiva.
Vê se há tempo, Romeiro malino
De o Poty tu de volta chamar
Pede, implora, mas planta em suas margens
Ou o sertão vira pó em vez de mar.
Ribeirinhos do rio sagrado
Beiradeiros do Rio Poty
Já se escoam na areia tuas águas
Ribeirinhos, meus cantos ouvi!
(A Gonçalves Dias; a todos os piagas; e aos ribeirinhos do Poty).

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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