Nesta hora em que sou tudo

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesta hora em que sou tudo

(psicografia de anônimo)

 

Já o verme – este operário das ruínas –

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

(Psicologia de um vencido, de Augusto dos Anjos)

Nesta hora em que sou tudo
gostava mais de ser nada:
poeira jogada ao vento;
placa apagada de estrada.

Qualquer porteiro me priva
aceder a tal ou qual morada.
Cão sarnento e varejeiras
hão acolhida mais garba.

Oh! que esta hora não passa;
tampouco seu pesadelo:
uma enojante jornada
que adia o longe  termo.

Mas o que calha ser assim
o tudo que, já não sendo, sou?
Centelha em basta chama?
Hidrogênio de balão em voo?

Mesmo pousada de espinhos talhada,
não guarnece acolhida.
Mais valera ser metade
da metade da metade apodrecida.

Mais servira não ter barco
a ser porto sem saída.

Este tudo me acabrunha
em sua abundância mesquinha:
jardim fadado a olores
que só  ervou as daninhas.

Dizem-me: hora da luz!
sequiosos apontam-me o facho.
Cristal que cintila no escuro?
Melhor fora  círio exausto.

Nesta hora em que a hora é morta,
o ponteiro dos segundos
célere anseia  o revés:
que fortuna é ter a cabeça
se este aleijão não tem pés?

João Bosco Bezerra Bonfim
27/03/2013

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

3 respostas para “Nesta hora em que sou tudo”

  1. Este texto fala sobre o fim da vida pelo visto.

  2. Ser livre, sem sê-lo, só o poeta pode.

  3. Não me basta ser tudo, se às vezes me sinto nada.

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