Literatura de Cordel – Despertando a curiosidade em todas as idades

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Fala no Seminário de Literatura: o encantamento pela leitura, no Centro de Formação de Professores Clarice Lispector, em Santo André, São Paulo, em 27 de setembro de 2012.

Produção: Marilda de Fátima dos Santos Bezerra

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Toda história, se é boa
Independente da idade
Desperta em quem a ouve
Grande curiosidade
Por isso, amigo leitor,
Ouça bem as novidades.

Era uma vez um pavão
Que avoou pelos céus
E deixou Conde Raivoso
Fazendo um escarcéu;
E dentro da ave a noiva
Fugida de pai cruel.

Essa é só uma história
Nascida em verso e cordel
Para alegrar moço e moça
E até alguém sem papel
Que, tendo memória boa,
Diz versos em carrossel.

Era outra vez Lagartixa
Que casou com um Calango
Que era tão preguiçoso
Só promovia o engano:
Dizia sim com a cabeça
E o não com o rabo, malandro.

Vou revelar pra vocês
Que um Misterioso Touro
Fugiu de todos vaqueiros
Mesmo cobertos de ouro
Até que foi pro céu
Em um combate de estouro.

Essa e outras Leandro
De Barros a nós deixou
Junto com outras quinhentas
Que escreveu e espalhou
Por nosso Brasil afora,
Foi poeta de louvor.

Junto a Martins de Athayde,
Ou Patativa do Assaré
Arievaldo Viana
Rouxinol do Rinaré
Do tempo antigo e de agora
Todos poetas de fé.

Posso falar pra vocês
De um cavalo afamado
Defecador de moedas
E de um conde abobado
Que se deixou enganar
Pelo compadre explorado:

Pagou com um bom dinheiro
Pelo cavalo ao sabido,
Mas o que viu foi estrume
E ficou no prejuízo.
Por isso, morto de inveja
Foi parar no precipício.

Conto também pra vocês
Da chegada de Lampião
E como aos diabos, no Inferno,
Causou grande afobação,
Vencendo o Belzebu
E voltando pra o sertão.

E tem a história da Moça
Que Dançou Depois de Morta
Com o filho de um fazendeiro
Que até lhe fez proposta,
Mas quase morreu de susto
Quando viu da cova a porta.

Não me deixem esquecer
Da esperteza de João Grilo
Um Amarelo pançudo
Mas que era bem sabido
A enganar rico tolo
Graças a seu bom juízo.

E quem foi que ouviu falar
Do tal Cachorro dos Mortos?
Desmascarou o assassino
De seus donos tão formosos
Evitando uma injustiça
Mesmo vivendo de ossos.

E traga de lá Camões
Conte também de Bocage
Que em sendo safadeza
São campeões da molecagem
Seduzindo belas damas
E ao rei fazendo visagem.

Neste Brasil sem memória
A luta dos cangaceiros
Só ficou para a história
Por causa dos folheteiros
Que escreveram a glória
Desses grandes bandoleiros.

Lampião tem muita história
Antônio Silvino, também,
Mas Jesuíno Brilhante,
Foi cordelista de bem,
Contando a própria história
Em versos que valem cem.

Trago também para vocês
Histórias deste poeta
Que se não inventa, aumenta
Faz de cavalo asa delta;
Faz vaqueiro voar solto,
E até laçar bicicleta.

Traz Andersen para hoje
Em versos, que desatino:
Um Soldadinho de Chumbo,
E o seu dono, Menino;
E o Rei que andava nu
Por ser vaidoso e mofino.

E tem a história de um lobo
Um Lobo-Guará de Hotel,
Que, cansado de fugir,
Livrou-se bem do tropel
Da cidade de Brasília
E criou seu próprio céu.

Vou parando por aqui,
Lembrando a todas as idades:
Que história não tem data
As gostosas dão saudade.
E que ler um bom cordel
Desperta a curiosidade.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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