LÍLITCHKA!, poema de Vladimir Maiakóvski

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


capa de livro publicado no Brasil, com traduções de Haroldo de Campos e Bóris Schnaiderman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LÍLITCHKA!

Em lugar de uma carta

Vladímir Maiakóvski

Tradução de Augusto de Campos

 

Fumo de tabaco rói o ar.

O quarto —

um capítulo do inferno de Krutchônikh*.

Recorda —

atrás desta janela

pela primeira vez

apertei tuas mãos, atônito.

Hoje te sentas,

no coração — aço.

Um dia mais

e me expulsarás,

talvez, com zanga.

No teu hall escuro longamente o braço,

trêmulo, se recusa a entrar na manga.

Sairei correndo,

lançarei meu corpo à rua.

Transtornado,

tornado

louco pelo desespero.

Não o consintas,

meu amor,

meu bem,

digamos até logo agora.

De qualquer forma

o meu amor

— duro fardo por certo —

pesará sobre ti

onde quer que te encontres.

Deixa que o fel da mágoa ressentida

num último grito estronde.

Quando um boi está morto de trabalho

ele se vai

e se deita na água fria.

Afora o teu amor

para mim

não há mar,

e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.

Quando o elefante cansado quer repouso

ele jaz como um rei na areia ardente.

Afora o teu amor

para mim

não há sol,

e eu não sei onde estás e com quem.

Se ela assim torturasse um poeta,

ele

trocaria sua amada por dinheiro e glória,

mas a mim

nenhum som me importa

afora o som do teu nome que eu adoro.

E não me lançarei no abismo,

e não beberei veneno,

e não poderei apertar na têmpora o gatilho.

Afora

o teu olhar

nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás

que eu te pus num pedestal,

que incendiei de amor uma alma livre,

e os dias vãos — rodopiante carnaval —

dispersarão as folhas dos meus livros…

Acaso as folhas secas destes versos

far-te-ão parar,

respiração opressa?

Deixa-me ao menos

arrelvar numa última carícia

teu passo que se apressa

É um costume russo datar as cartas ao fim.

Vielimir Khlébnikov

Tradução de Augusto de Campos

Uma vez mais, uma vez mais

Sou para você

Uma estrela.

Ai do marujo que tomar

O ângulo errado de marear

Por uma estrela:

Ele se despedaçará nas rochas,

Nos bancos sob o mar.

Ai de você, por tomar

O ângulo errado de amar

Comigo: você

Vai se despedaçar nas rochas

E as rochas hão de rir

Por fim

Como você riu

De mim.

 

**26 de maio de 1916, Petrogrado

 

1919-1921

 

 

*Alusão ao poema “Um jogo no Inferno”, de A. Krutchônikh e V. Khlébnikov.94 Dois “Uma vez mais, uma vez mais”

** É um costume russo datar as cartas ao fim.

 

Retirado de: http://www.letras.ufmg.br/vivavoz/data1/arquivos/poemasrussos-site.pdf

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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