Letramento literário

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Tenho trabalhado com letramento literário com algumas comunidades escolares de Brasília, tanto na rede pública quanto nas escolas particulares. O ideal é que façamos um ciclo completo: primeiro, uma oficina dom os professores (mediadores de leitura literária); depois, que meus livros (e de outros autores, também), sejam lidos e apreciados pelos alunos. Nessas leituras e releituras, há de tudo: versos em paródia aos meus, desenhos, xilogravuras (por causa do cordel), maquetes (do jipe cangaceiro, por exemplo), e assim por diante. Em terceiro, para fechar o ciclo, eu me encontro com os alunos (acompanhados de seus professores e professoras). Nesse encontro, respondo a perguntas, faço leituras em voz alta, assisto a dramatizações de meus textos, e assim por diante.

Em 2012, já ministrei oficinas no Cor Jesu (Asa Sul), Escola do Sesc (Edusesc) de Taguatinga, no Colégio do Sol (Lago Norte), Escola Classe 46 (QNL, em Taguatinga). Fora isso, fiz leituras públicas também no Colégio do Sol e no Sagrado Coração de Maria (Asa Norte). Fora de Brasília, ministrei oficina e palestra para os professores do PROLER Vale do Rio Grande, em Uberaba (junho). E também leitura e lançamento no Salão do Livro Infantojuvenil, no Rio de Janeiro.

Com fundamento em meus estudos do gênero cordel, estou praticando esse conceito com os mediadores de leitura literária. Abaixo, um pouco dessa fundamentação.

O conceito de letramento remete à noção de acesso pleno às habilidades e práticas de leitura e de escrita. Distintamente da tradicional noção de alfabetização, o letramento cobre vasta gama de conhecimentos, habilidades, capacidades, valores, usos e funções sociais, no dizer de Magda Soares[1]. Enquanto a alfabetização implicaria, basicamente, o domínio da tecnologia da leitura e da escrita, o letramento remete a conhecimentos e práticas sociais específicas.

Com base nessa reconfiguração da noção de letramento é que ganha corpo no Brasil e no mundo a ideia de letramento literário, o qual diz respeito ao acesso a livros de literatura. No dizer de Antonio Candido[2], estariam na categoria de literatura “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático, em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.”

E, ainda segundo Antonio Candido, o acesso à literatura deveria, numa sociedade como a brasileira, figurar como um dos direitos dos cidadãos – no mínimo, na mesma esfera que o direito à saúde ou à moradia. Mais que isso, o crítico literário e historiador da literatura aponta que a literatura deveria figurar como um direito humano.

Segundo a Unesco[3], são três os principais fatores qualitativos que levam uma pessoa a se tornar um leitor: a) ter nascido numa família de leitores; b) ter passado a juventude num sistema escolar preocupado com o hábito de leitura; e c) o valor “simbólico” que a cultura nacional atribui ao livro. É claro que tais aspectos não são indiferentes às condições contextuais, como a facilidade de acessar o livro, o que depende do preço deste, da existência de livrarias e de bibliotecas públicas, entre outros requisitos.

Estudo publicado em 2000[4] revelava que o consumo de livros per capita, estava na faixa de 2,5 livros/habitante/ano. Muito poucos, se comparados aos 10 livros per capita observados nos Estados Unidos e na França. Entretanto, essa estimativa de livros per capita, no Brasil, deve sofrer um desconto, uma vez que 60% destes é constituído de livros didáticos, e paradidáticos.

Em pesquisa mais recente, publicada em 2008, Retratos do Livro no Brasil[5], constatou-se que a média de livros lidos por pessoa, no Brasil, passou para 4,7; sendo que, no Sul, chega a 5,5 livros per capita. Já o Norte registrou o menor índice com 3,9 livros por habitante. Os dados são do Retrato da Leitura no Brasil, do Instituo Pró-livro.

Essa mesma pesquisa revelou que ainda há um número expressivo de não leitores, como chama a atenção Maria Antonieta da Cunha, na introdução da publicação dos Retratos da Leitura no Brasil[6]. A pesquisa identifica que 16% das pessoas da amostra são não-alfabetizadas; mas que 48% das pessoas declararam-se não-leitores. E que 37% têm até a 4ª série, faixa em que as práticas de leitura ainda não estão consolidadas. Ou seja, não há uma necessária correspondência entre ser letrado (dominar leitura e escrita) e ter a prática de ler livros.

 



[1] Magda Soares, no livro Letramento – um tema em três gêneros, Ed. Ceale/Autêntica, Belo Horizonte, 2010.

[2] No artigo “O Direito à Literatura”, publicado em Vários Escritos¸ Ed. Ouro Sobre o Azul/Duas Cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, 2004.

[3] Panorama Editorial Brasileiro, artigo de Ana Paula Fontenelle Gorini e Carlos Eduardo Castello Branco, disponível em : http://www.fae.edu/publicador/conteudo/foto/332006Panorama%20do%20Setor%20Editorial%20Brasileiro.pdf, acessado em 25 de janeiro de 2012.

[4] Panorama Editorial Brasileiro, artigo de Ana Paula Fontenelle Gorini e Carlos Eduardo Castello Branco.

[5] Retratos da Leitura no Brasil, disponível em http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48, acessado em 25 de janeiro de 2012.

[6] Idem.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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