Hino aos juízes, poema de Vladimir Maiakóvski

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Hino aos juízes

Vladimir Maiakóvski

1915

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré,
Na galera a gemer os galés, um por um.
Com um rugido abafam o relincho dos ferros:
Clamam pela pátria perdida – o Peru.


Por um Peru – Paraíso – clamam os peruanos,
Onde havia mulheres, pássaros, danças,
E, sobre guirlandas de flores de laranja,
Baobás – até onde a vista alcança.


Bananas, ananás! Peitos felizes.
Vinho nas vasilhas seladas…
Mas eis que de repente com praga
No Peru imperam os juízes!


Encerraram num círculo de incisos
Os pássaros, as mulheres e o riso.
Boiões de lata, os olhos dos juízes
São faíscas num monte de lixo.


Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,
Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul:
Na mesma hora virou cor de carvão
A espaventosa cauda do pavão.


No Peru voavam pelas campinas
Livres os pequeninos colibris;
Os juízes apreenderam-lhes as penas
E aos pobres colibris coibiram.


Já não há mais vulcões em parte alguma,
A todo monte ordenam que se cale.
Há uma tabuleta em cada vale:
Só vale para quem não fuma.”


Nem os meus versos escapam à censura;
São interditos, sob pena de tortura.
Classificaram-nos como bebidas
Espirituosa: “venda proibida”.


O equador estremece sob o som dos ferros.
Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.
Somente, acocorados com rancor sob os livros,
Ali jazem, deprimidos, os juízes.


Pobres peruanos sem esperança,
Levados sem razão à galera, um por um.
Os juízes cassam os pássaros, a dança,
A mim e a vocês e ao peru.

Tradução de Haroldo de Campos, no livro Poemas Vladimir Maiakóvski

 

Vladímir Maiakóvski (1893-1930): Considerado uma das maiores vozes da poesia russa moderna, nasceu na aldeia de Bagdádi, nos arredores de Kutaíssi (que hoje leva o nome do poeta), na Geórgia. Após a morte súbita do pai, a família fica na miséria e transfere-se para Moscou, onde Maiakóvski continua seus estudos. Lá ingressa no Partido SocialDemocrático Operário Russo. É detido em duas ocasiões, passando onze meses na prisão entre o período de 1909 e 1910. Conhece, na Escola de Belas Artes, nomes como David Burlik, Vielemir Khlébnikov e Kamiênski, com os quais funda o movimento cubo-futurista russo. Ativamente engajado na “esquerda das artes”, Maiakóvski foi um entusiasta do uso da propaganda não só como veículo de divulgação dos ideais comunistas, mas da própria poesia. Suicidou-se em 1930, com um tiro no peito, após experimentar profundo desencanto com os rumos da Revolução e o impasse a que ele levou sua obra. Revolucionário político e artístico, Maiakóvski é uma das referências capitais no panorama da poesia russa moderna, dono de uma linguagem a um tempo lírica e corrosiva, em seu estilo sempre original e versátil. Influência não menos importante na dramaturgia russa, exercitou-se em peças de forte cunho social; escreveu roteiros de cinema e filmes publicitários. Obra poética: A flauta-vértebra (1915); A nuvem de calças (1916); O homem (1917); Guerra e paz (1918); 150 milhões (1920); Amo (1922); A propósito disto (1923); Lênin (1925); Muito bem! (1927); A plena voz (1930). Teatro: Mistério bufo – retrato heróico, épico e satírico de nossa época (1921); O percevejo (1928); Os banhos (1929). <Texto de http://www.letras.ufmg.br/vivavoz/data1/arquivos/poemasrussos-site.pdf>

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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