Dona Mariinha faz cem anos

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Pra saber de Mariinha
A de ontem e a de amanhã
Precisa já ter comido
Do cuscuz de mucunã!

Neste nove de agosto
Aqui no Riacho Seco
Mariinha faz cem anos
De vera, não arremedo
Enfrentou noventa e nove
Por que dos cem terá medo?

Nascida em São Gonçalo
Que era de Independência
Hoje Quiterionópolis
Lugar de muita decência
Onde seus avós maternos
Deixaram sua descendência.

Mora no Riacho Seco
Mas como chegou aqui?
Mariinha Pé no Chão
Passando do Piauí
Foi até o Maranhão
Mas seu leito é no Poty.

Se você quer conhecer
Essa sertaneja irmã
Não carece ir muito longe
Nem consultar um imã
Basta já ter comido
Do cuscuz de mucunã!

Muitos dizem que ela é braba
Mas não sabem da metade
De seu padecer passado
Conhecido nas viagens
Santa Mariinha sofre
Ou imagina visagens?

Morou ela na Pintada
Onde já pintava o sete
Mas nunca imaginou
Ter quinze tataranetos
Ou aos cem anos já ter
Setenta e nove bisnetos.

Acompanhe Mariinha
Vencendo a fome terçã
Sinta o gosto em sua boca
Do cuscuz de mucunã!

Quatorze filhos pariu
Centenas ela aparou
Filhos de Parto sadios
Que com rezas batizou
Mesmo não sendo santa
Onde põe a mão, sarou.

Dizem que ela é tirana
Que educa com mão de ferro
Mas quem é que já escutou
Da fome braba o berro?
Antes de julgar, atente
Para o seu próprio erro.

Quarenta e um netos teve
Dos filhos sobreviventes
Pois a maioria foi-se
Ainda na inocência
Quando a Morte Severina
Os ceifou com violência.

Salve Maria Bezerra
Salve Raimundo Bonfim
Com Alexandre e Adelaide
Viventes do sertão sem fim
Salve Maria Gonçalves
E o pai Alexandre Bonfim.

Mas que os anjos
Se alembrem
Dos que bem cedo se foram
Que hoje aqui atendem
Com suas almas com certeza
E a nenhum de nós ofendem.

Mariinha agradece
A seu Raimundo Moreira
E Dona Francisca Silva
Que a criaram pra parteira
Seguradora de gentes
Das mulheres parideiras.

E já ia me esquecendo
Do sustento de manhã:
Lavando-a em sete águas
Tirando-lhe o pó com afã:
Para não morrer de fome
Fez cuscuz de mucunã.

Na sua mitologia
Diz que nunca foi à escola:
Preferia as bonecas
Que até hoje a consolam.
Das letras que lhe roubaram
Ela faz beleza, agora.

Casou-se com Alexandre
Que era Bezerra Bonfim
Com ele muito gozou
Esquecendo o que era ruim
Como faz quatorze filhos
Sem o amor na camarinha?

Mas esse seu casamento
Nunca foi dos de novela
Pois nos anos dos cinquenta
Foi só um acender de velas
Do marido, que já morto,
E de um filho em sentinelas.

Com essas mortes tão tristes
Fugiu para o Maranhão
Apanhadora de arroz
Quebrando coco ao serão
Tanto foi o sofrimento
Que voltou ao seu torrão.

Desde os anos de sessenta
Chegou a Novo Oriente
Então, novo município,
Hoje apinhado de gente
Com muita motocicleta
E de mortes “de repente”.

Do cuscuz de mucunã
Ela tirava a sustança
Para criar os seus filhos
À espera da bonança
Para ela, não chegou
Aos trinetos, a esperança.

Faz bem bonecas de pano
Enquanto canta suas dores
Lembrando do tempo antigo
E de seus muitos amores
Pois a sertaneja loura
Desdenhava dos pudores.

Vem cá, Dona Mariinha
Quem foi que te ensinou
A fazer bonitas loiças,
Panelas que eram um primor?
Foi o mesmo deus quem um dia
Seu choro amiudou?

Batia roupa nas pedras
Nas nascentes do Poty
Para não ouvirem o grito
Nascido do seu sentir:
Como pode a injustiça
Tirar da mulher seu rir?

Para ganhar o comer
Não havia tempo ruim:
Barria terreiro, cedo
Pilava um pilão sem fim
De onde terças de milho
Alimentavam o Sinhozim.

Vem cá, Dona Mariinha
Como é que lava a massa
Para fazer boa goma
E sem nenhuma fumaça
Fazer beijus saborosos
Que criaram sua raça?

Vem cá, Dona Mariinha,
O ofício de parteira
Quem foi mesmo que ensinou?
Que aparou a vez primeira?
Será o espírito santo
Que te fez tão rezadeira?

Vem cá, Dona Mariinha
De onde veio essa elegância
Que no cocuruto leva
Uma garrafa e ainda lança
Seus olhares benfazejos
A homem, mulher e criança.

Você que está curioso
Como se chega a cem anos?
Mas que come do bem bom
Queijo e carne todo o ano:
Sabe qual é o gosto
Do cuscuz de mucunã?

Pelos cem anos de Maria Gonçalves Bonfim, a Dona Mariinha,
por João Bosco Bezerra Bonfim

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

2 respostas para “Dona Mariinha faz cem anos”

  1. Jose Aírrton Gonçalves Bezerra 2 de abril de 2014 em 2:15 am

    Que obra prima! Primo João Bosco Bezerra Bonfim Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Sou um apaixona pela minha vó Mariinha, que muito fez cafuné quando ditava em seu colo e segurava o fuso quando ela rodava para tecer o algodão dos sertões dos Inhamuns. Os 101 anos da vó Mariinha estão logo ali….com cuscuz de mucunã e traíra escalada azada na brasa, acompanhado com muita farinha.

    Parabéns Primo João Bosco pela bela obra literária.
    Abraço, querido João Bosco

    Zé Aírton

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