Cruz

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


por João Bosco Bezerra Bonfim

 

Ah! Você não sabe? Pois eu vou te contar. É uma história muito da triste, não sabe! Olhe, vou lhe avisando. Muita gente vai dizer que é mentira minha, que é invenção. Mas Deus é testemunha, e Deus que me perdoe pelo que eu vou dizer, mas é a verdade e a verdade tem que ser dita. A senhora avalie que esta criatura já foi uma das mulheres mais cobiçadas desse pé de serra todinho. Era bonita a valer. Muito homem se botou pra cima dela e ela se esquivou. Você acredite que, sem ser vaidosa, nem emperequetada, era bonita a não ter mais conta. Uma novilhona. Aqueles olhão dela deixavam os homens todos arreados. E não era dessas mulheres cruéis, que saem seduzindo e deixando prá trás. Nem deixava que ninguém se engraçasse com ela. Era mulher de respeito. Também não ligava fortuna. Refugou não sei quantos doutor e filho de fazendeiro. Também não era arredia de todo. Conversava com todos. Não era como agora. Dava bom dia, boa tarde, servia cafezinho, oferecia beiju, broa, pousada, se era tarde. Namorar, namorou poucos, ou nenhum, ou um, que foi o marido, se é que aquilo foi namoro. Os cabras é que ficavam viçando e saíam uivando que tinham feito isso e aquilo. Mais para se fazerem. Fazerem fama. Pabulagem pura. Você avalie que não se compara com esse esqueleto que está aí, não. Era formosura muita. Uma égua bonita, antes de entrar no cio. De dar inveja a toda moça que estava em idade de namorar e casar. Sentiam-se ofendidas, porque qualquer namorado e qualquer noivo podia desmanchar o compromisso a qualquer hora. Era só ela esticar o beiço. Mas ela não era orgulhosa. Também não era oferecida. Foi aí que se apaixonou por um moço de fora. O moço tinha vindo à feira, como acompanhante de um amigo que trazia um caminhão com rapadura. Passeio à toa. Diz que pra esquecer um noivado desmanchado. Nem nunca tinha ouvido falar dela ou da formosura. Era de outro estado, até. Mas assim que ela botou os olhos nele, se apaixonou. Dizem que ela chegou na frente do moço, que estava lá conversando com os amigos dele, e começou a olhar o rapaz. Disse que olhava e olhava até que ele olhou pra ela e encarou. Primeiro, de surpresa. Chegou a baixar os olhos, talvez encabulado. Mas aí voltou a olhar. E os dois se olharam firme. O povo conta que foi meia hora. Ou que fosse dez minutos, mas podia ter sido só dois, que o povo gosta de exagerar. Mas podia ter durado dias. O fato foi que se olharam. Com uma intensidade de quem mergulha em açude de água limpa e vai desejando ir fundo e fundo e desejando que esse açude não tenha fundo. E se apaixonaram naquela mesma hora. E o moço convidou ela para conversarem. Diz que a conversa foi pouca. E que, dali a pouco, estavam já de mãos dadas. O moço, que ia voltar no mesmo dia, ficou. Ficou numa pensão. E ficou a semana inteira. No dia seguinte ao da feira, foi visitá-la na casa dela. E diz que já foi pedindo a moça em casamento. O pai dela, que já tinha ultrapassado o ciúme que se tem natural de uma filha e já até se acostumara à presença dos conquistadores,, não levou muito a sério. Era homem respeitador e não gostava de maltratar ninguém. Convidou-o para um café e mandou matar um capão, porque o moço ficaria para o almoço. Diz que o pai, pela primeira vez, soube que não era brincadeira. Quando os dois se encontraram na sala, foi do mesmo jeito da feira. Um abismo e outro abismo. Um e outro caindo num vão sem fim de serra. Num precipício de olhar. Um olhando a outra e a outra olhando o um, que parecia que estavam brincando de sério. Sabe? Aquela brincadeira de menino em que apostam um com o outro quem ri primeiro? Pois é, parecia brincadeira de sério. Porque nenhum dos dois ria. Era como se um entrasse no outro. A ponto de quem estivesse perto ficar ou com vergonha ou morrendo de inveja, mas ninguém ficava indiferente. Mas o fato é que se acertaram. O moço de fora ficou ainda uma semana, tomando pé das coisas, pedindo providências na igreja e no cartório. E acertaram para um mês depois o casamento. Nisso o moço de fora foi em casa lá dele moço. Veio com pai, mãe e uma irmã. A mãe, inconsolável, que era o único filho homem, que era muito novo, que aquela cascavel tinha enfeitiçado ele. A ela não teve coragem de dizer nada, mas aos outros acusava de bruxa, que tinha enfeitiçado o filho, que ia ao Maranhão, que ia desfazer o feitiço, que conhecia um feiticeiro mais poderoso. Nenhuma súplica ao filho adiantou. O pai,. embora achasse aquilo tudo estranho, concordou com o casamento e até deu um dinheirinho para que comprasse um pedacinho de terra e assentasse um pequeno sítio. E assim, foi, minha senhora. O casamento não teve nada de especial. Foram à igreja, o pai dela mandou matar um capado, uns bodinhos e fizeram uma festa de dar gosto. As pessoas que  foram  estavam mais interessadas em saber que mudança ocorrera na moça para que ela resolvesse deixar a solteirice. O que haveria com aquele rapaz. Os pretendentes dela, entre raivosos e invejosos, não deixaram de cumprimentar com fortes tapas nas costas o felizardo. Não deixavam também de manifestar seus desejos de felicidade, vencidos que  foram pelo estrangeiro. E nunca mais se falou dela. Seja porque não era mais objeto de desejo dos rapazes, seja porque não era mais motivo de inveja das moças, seja porque aquele casamento tinha calado a boca de muita gente, que vivia dizendo que ela acabaria virando quenga. Tiveram um filho, dois filhos, três filhos. E viviam a vidinha que se vive nesse pedaço de chão. Nisso, já tinham algum progresso, com algum gadinho e tudo o mais. No tempo daquele sucesso triste, a mais velha tinha sete anos, o do meio tinha quatro e o mais novo menos de ano, ainda mamava. Foi aí que aconteceu o acontecido. Não se sabe de onde apareceu. Acho que vinha do Sul ou de Minas Gerais. Era médico. E atendia no posto de saúde da cidade. Foi ali, consultando os filhos, que ela o conheceu. No princípio, ele a tratou com a cordialidade de médico e paciente, mas sem deixar de espichar uns olhares, segundo depois falou a auxiliar de enfermagem, que é filha de uma comadre minha. Na segunda visita, foi ela mesma que foi se consultar. Umas palpitações. E foi ela quem deitou uns olhos para o doutorzinho (como me falou minha comadre). A essa altura ele já era benquisto na cidade, que aqui todo mundo é humilde e logo quer ficar amigo de gente importante. Era convidado a almoçar nas casas das pessoas mais importantes do lugar, dos vereadores, do seu Zequinha das Fazendas, do Biu do Armazém, do Dedé das vaquejadas.  Era solteiro, segundo apuraram todas as moças casadoras da cidade, que esta aqui é uma terra escassa de marido bom. É, era solteiro. De Minas Gerais. Curso na Paraíba. Empregado do Estado. Veio parar nestas bimbocas. Sabe como é. Primeiro emprego, tem que ser em qualquer lugar. Se não era santo, também não era beberrão. Tomava uma cerveja ou outra, mas nunca se excedia. Dançava respeitador nas festas. Tinha família. Mostrava foto de mãe, pai e irmãos. Às vezes se mostrava meio triste e todo mundo tratava de consolá-lo. Estava longe de casa. Convidavam para banhos no açude, nos rios. Mas teve um tempo em que ele começou a ficar mais sorumbático. Não aceitava convites de ninguém. Alegava que tinha que estudar para umas provas. Mas Dona Filomena da pensão disse que lá ele não ficava. Nesse mesmo tempo, se amiudaram as visitas dela ao Posto de Saúde.  Por nada era uma consulta. Tosse, consulta. Diarréia, consulta. Coisa que aqui a gente cura com chá, ou com reza, precisava de ir no posto. Mas, justiça seja feita, ninguém nunquinha nesse mundo viu os dois sozinhos ou por cantos. Deus me livre da língua do povo. O marido, coitado, não dizia nada, porque prezava muito a saúde dos filhos e nunca ia maldar da mulher. E quando alguém no botequim, cheio de gorós, fez uma insinuação, ele puxou a faca e o chamou para repetir. Curado da bebedeira pelo medo, o maledicente se desculpou e disse que ele havia entendido errado.  Mas aquilo fez com que o marido ficasse com a pulga atrás da orelha. Passou um tempo e esqueceu. Até aquele dia em que ela, a princípio de olhos baixos, mas depois com uma determinação de fera, disse que não queria mais ser mulher dele. Que ele escolhesse. Que ela saía ou que ele saía. Ele quis saber, indagar o motivo. Ela dizia que era nada. Que tinha decidido assim. E assim tinha que ser. Não houve briga. Diante da negativa dela de dizer o motivo daquela separação repentina, ele atinou que a maledicência podia não ser maledicência. Depois, ligou uma coisa com outra. As visitas ao posto de saúde, as idas mais freqüentes à feira. O médico havia mesmo vindo à casa, com a desculpa de saber como ia um menino. Educado, convidou-o a entrar, ofereceu café, conversaram sobre vacas e o médico se foi. Se olhou a mulher, que estava em roupas de casa, o marido não maldou na hora. Era médico. Acostumado com aquilo, como se diz.  Está  bem, disse ele, controlando sabe-se lá Deus como, uma raiva que lhe crescia. Ou por outra, aceitando com resignação a vontade de pedra da mulher, que ele conhecia bem e sabia que nada a removeria. Viu que não morava mais nos olhos da mulher. Que ali só morava um não bem grande. Mas, avisou: os meninos ficam comigo. E você nunca vai ter a separação.  Ela se foi. Levou pouco mais que a roupa do corpo. Ninguém nunca ia imaginar que aquela moça bonita, que aquela história de amor ardente ia acabar assim, com ela, ali daquele jeito. O fato é que foi embora do sítio. Mas não voltou para a casa dos pais. Nem ficou na cidade. Mudou-se para a cidade vizinha. Dessa vez ninguém perdoou. Como podia abandonar assim a família? O marido, tudo bem. Mas uma criança, ainda de peito? Bem sabiam que ela era mesmo meio selvagem, esquisita. Esquisita só, não. Louca. Uma vez por semana vinha. O marido deixava que ela visse os meninos na varanda. Não deixava entrar na casa.  Ele cuidou de tudo.  Não pediu socorro à família. Iriam humilhá-lo. A mãe bem que tinha avisado que aquela onça não podia prestar. Trabalhava mais que de costume. A menina mais velha cuidava do do meio e os dois cuidavam do nenenzinho. Às vezes, bebia. Aos domingos. Não bebia nos botecos da feira. Nos afastados. Sozinho. Sem conversar com ninguém. Vinha cambaleando para casa. Se de bicicleta, caía várias vezes. Segunda estava bom de novo. Nesses dias, deixava com a vizinha os meninos e só apanhava no dia seguinte. Foi aí que sucedeu a coisa. Que Deus me livre, pois eu não gosto nem de lembrar. O médico? Ah, o médico, primeiro tirou umas férias e ficou longe por um mês. Antes de voltar, pediu transferência para a cidade vizinha. Justamente a cidade onde a ela tinha ido morar. O que ela fazia? De tudo um pouco. Arrumava casa, trabalhava na feira. Não tinha certo. Trazia roupinha para os meninos. Precisava ver. Quando estava com eles, parecia amorosa como sempre. E os meninos, coitados. Criança perdoa tudo. Quando viam a mãe, corriam. Pediam que voltasse. Ela pedia ao marido para voltar? Neca. Orgulhosa. A família dela como que excomungou ela, também. Não queriam saber. Quiseram ficar cuidando dos filhos. O marido não deixou. Brios. Era homem. Cuidaria de tudo. Pois bem. Não se sabe se ela fazia juras. Só que dizia que os filhos dela iam morar com ela. Um dia. E dizia isso com uma convicção e um tom que assustavam. Nem que seja a última coisa que eu faça. Não dava explicações a ninguém. Não se tinha notícia, também, se se encontrava com o doutorzinho, que, essa altura, já estava noivo de uma grã-fina da capital. Todo o mundo desconfiava, mas ninguém provava. Pois bem. Foi num desses domingos de cachaça o assucedido. Ele saiu. Deixou os filhos com a vizinha. Voltou de madrugada. O incêndio foi aí pelas duas, três da manhã, porque, quando, da minha casa, enxergamos o clarão, já eram quase quatro horas. Quando chegamos aqui, não havia mais nada para salvar. O que se apurou depois foi o seguinte: voltando da rua, altas horas da noite, ele tinha passado na vizinha, que ficava a uns quinhentos metros, e tinha levado os meninos todos para casa. Ninguém não sabe como começou. Que alguém tivesse tocado fogo é possível. Deus (ou o capiroto) é quem sabe disso. E se era que alguém tivesse tocado fogo de propósito, Deus me livre e guarde, era para matar só ele. Ela veio no mesmo dia, chamada pelos conhecidos. Alguém telefonou. Parece que já estava pronta para viajar. Trazia mala com roupa dos meninos dentro. Decerto que não contaram tudo. Só que a casa tinha sido incendiada. Minha irmã, quando ela chegou que viu os torrõezinhos, não se agüentou. Corria de um lado para o outro dessa várzea feito um bicho brabo. E urrava feito um cão sem dono. E se rasgava e se espojava no chão. E chegava perto dos corpos e chorava de novo. E foi essa desesperação por dois dias. Ninguém conseguia pará-la. Nem ela deixava enterrar as pobres criaturas. No terceiro dia ela desmaiou. Foi aí que levaram e enterraram as crianças e o pai junto no cemitério. Ela olhou de longe. Ninguém chegava perto dela. Bicho do mato. Uns, condoídos, queriam dar os pêsames a ela. Mas o olhar que dirigia a eles era de espantar. E assim foi. E assim tem sido. As cruzes foi a família dele que mandou colocar no lugar da casa. A maior, do homem, a menorzinha do anjinho, uma escadinha. E desde esse dia ela não sai mais dali. Quem tem pena, como eu, vai lá e deixa um prato de comida. Mas pensa que ela pega alguma coisa de mão de cristão? Nunca. Depois que a gente vai embora é que ela come. Lava o prato e devolve. Onde mora? Mora ali e não mora em lugar nenhum. Isso já faz sete anos. Dizem que os meninos fazem milagres. Os três pequenos mártires. Que fazem curas. Já até organizaram romaria no dia da morte. Isso aqui fica coalhado de gente. Vem vendedor de santinho da cidade. Dizem que isso aqui vai virar um novo Juazeiro ou um Canindé. O padre não aprova. Que é sacrilégio. Mas eu mesmo já vi muita gente vir se arrastando de joelhos, pagando promessa de graça alcançada. Mas santo do povo é assim. Não depende de benção da Igreja. Às vezes ela some. Aparece depois. Dizem que vira lobisoma. Mas isso já é conversa do povo. Não fala com ninguém. Às vezes parece que reza. Às vezes parece que está xingando os céus (te esconjuro). O doutor? Desse não se sabe. Depois do acontecido, pediu demissão. Montou hospital lá na cidade dele. Diz que casou bem. É isso. É essa a história dessa pobre alma. Pode perguntar na vizinhança. Pode que lhe conte uma história diferente. Mas, a verdade, essa só Deus é quem sabe.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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