Conto nublado

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Conto nublado

 

conto nublado

 

 

 

 

 

 

 

 

[em memória de Guilherme de Almeida

 

E  vem de lá a noite

Com sua luz tão fria

Clareando a mancha

Que projetara o dia

 

E bota a cara a lua

Com luz fina e densa

Colhendo as sombras

Das águas mais mansas

 

Na estrada, o moço

Desafora um não

Assobia um verso

De inventada canção

 

E lá fica a moça

Cara atrás da janela

A refletir o orgulho

Mas recende a canela

 

Mas lá oculta a lua

A paixão que ardera

Ferida pelo desdém

Da recusa severa

 

E nublado o conto

Do amor que não fora

Na cantiga dos sapos

Sob a nuvem mais cara

 

Quanta lembrança de pó

Escondida, agora

Nesse quase amor

Por tão bela senhora

 

Oh quantos gritos

Não foram calados

No sonho ferido

De mil madrugadas

 

Mas vem-se a noite

Com a lua tão fria

Calando a calma

— cortina do dia

 

Foi-se o espetáculo

E a vergonha que cora

De um amor vadio

Que mal se demora

 

Mas isso são contos

De eras passadas

E hoje são pontos

Em letra assustada

 

E que venham noites

E esvaiam-se dias

Mas sempre a lua reconta

O que a nuvem escondia

 

João Bosco Bezerra Bonfim

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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