Canto a São Sebastião

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Canto a São Sebastião

Canto a São Sebastião

Praça Tião Areia

Em 18 de outubro, no Sarau no Parque do Bosque

 

A presença de João Bosco Bezerra Bonfim ocorreu no contexto da Mostra Itinerante de Poesia.

 

 

Oh Sebastião, de Roma,

Me traga a inspiração

Para cantar com doçura

A outra Sebastião

Cidade desta Brasília

Livrai-nos ingratidão.

 

Não canto o rei renascido

Do Quinto Império, o Vulto

Que, por sede de poder,

Quis perpetuar o intuito

Desde a morte no deserto,

Permanecido Oculto.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Eu canto um santo guerreiro

Canto São Sebastião

Morto ele em sacrifício

Deixou bem uma lição:

Quem luta pela bondade

Não  sofre expiação.

 

Sebastós é nome grego

De divina criatura

Sebastião é divino

Venerável formosura

Imigrante lá de Minas

Caído em desventura.

 

Foi aqui na Agrovila

Do Santo Sebastião

Onde se queimou tijolo

Pra fazer muita mansão

Quem, então, lenhou o cerrado?

Foi o oleiro ou o barão?

 

Sebastiana também

Migrante do Nunca Vi

Aos pés do santo guerreiro

Veio ela morar aqui:

Que, na queda deste mundo

Não se escolhe onde cair.

 

Eu conheço uma mineira

Nascida no Piauí

E uma goiana esperta

Das ribeiras do Poty

Geografia aqui une

Não serve pra dividir.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Sebastião foi à missa

Do candomblé, num terreiro

Comungou com o pastor

Crente como um romeiro

Eita santo ecumênico

Parece que é brasileiro.

 

Sebastião é Oxóssi

Orixá deste cerrado

Protege buriti e baru

E capivaras do lago

Fauna e flora deste mundo

Tem ele bem conservado.

 

Hoje, outubro, dezoito

Celebro Sebastião

Cuja data é em janeiro

Dia vinte, em exatidão,

Mas para a poesia boa

Bastam as rimas em ão.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Sebastião já chorei muito

Certa noite de Natal

Cristo nascera nas casas

Menos em certo quintal:

Magros reis não evitaram

Um nascido em matagal.

 

Sebastião, já chorei muito

Na Praça Tião Areia

Seria de amor ferido?

Seria preso em teia

Do crack e do traficante

Que me dominava as veias?

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Não chore por mim, meu santo

Em noites frias, em vão

Proteja minhas crianças

Do ódio e da inanição

Deite amor aos pequenos

Proteja da exploração.

 

Não chore por mim Oxóssi,

Justiceiro das florestas;

Em vez disso use o poder

Pra proteger o que resta

Deste Bosque que hoje é parque

Onde a natureza é festa.

 

Não chore não, Sebastós,

Divino, sacro, amoroso,

Dê escola aos nossos filhos

Livre da luxúria, zeloso,

Ponha a salvo nossas filhas

Do explorador tinhoso.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Sebastião tem mania

De andar de madrugada

Espanta sua tristeza

Nas ruas, em serenata

Gosta mesmo é do sereno

E não de fazer bravata.

 

Nesta terra de flechadas

Há também a boa arte

De músicos e de cantores

Que brotam em toda parte

Seja forró ou cult jazz

Nunca um som de descarte.

 

São Sebastião tem rock

Tem funk e um belo samba

Tranças rastafári dançam

Um xote destes que amam

E o hip hop grita

Contra a repressão sacana.

 

Sebastião não dá manchete

A não ser de violência

Correio Braziliense

Por ele não tem clemência:

Quer humilhar todo pobre

Com sua falsa decência.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

Esta cidade é feita

Antes de tudo, esperança

De ganhar dignidade

Nesta terra de bonança

Não é só Plano Piloto

Que merece a boa herança.

 

 

Neste São Sebastião

Conheço a Ludocriarte

Onde as crianças brincam

Alegres, em estandarte

Anunciam suas histórias

E também a viodeoarte.

 

Tem também a Supernova

Estrela sem dimensãoo

Que projeta fina luz

Do Santo Sebastião

Poesia para o Parque

De um Bosque que é coração.

 

Nesta Mostra Itinerante

A poesia é falada

Não oculta em livro lindo

Ganha a voz e a estrada

Via a poesia Santa

Na Sebastião Sagrada.

 

Sebastião por mim não chore:

É outro o meu pedido:

Encha as ruas de alegria,

Das crianças o alarido

Se ouça no Lago Sul

Chegue a todos os ouvidos.

 

UNS VENERAM PADRE CIÇO

OUTROS, CHICO DE ASSIS

HOJE CANTO SEBASTIÃO

SANTO DE QUEM É FELIZ

AS FLECHAS JORRAM BONDADE

DA CAVADA CICATRIZ.

 

João Bosco Bezerra Bonfim, em 18 de outubro de 2015, por ocasião da Mostra Itinerante de Poesia Falada, no Parque do Bosque, em São Sebastião, DF.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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