Canta, Cândido Bezerra

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Na Barra do Riacho Seco,
no ano de dezessete,
um cândido fez que nasceu,
mas já pintando o sete:
amansava burro brabo;
na sela que nem chiclete.

De Cândido só o nome:
não era nada inocente.
Nadador só de braçada,
atravessava as enchentes
nesse rio quando cheio
com a balsa passava a gente.

Morador de beira rio
tem no mundo uma missão:
dar de beber a quem passa;
saciar todo cristão;
dar passagem a cigano,
romeiro, e até capitão.

Cândido veio ao mundo
por Ana e Luiz Bezerra.
Aprendeu dos sertanejos
uma verdade que encerra:
vencer espinho e seca,
fazer do sertão uma serra.

Muita sede tinha Cândido
na Barra do Riacho Seco,
onde a água não bastava
da seca lhe veio o medo:
migrou para o Piauí
da terra pôs-se em degredo.

Mas o sofrer de um ente
não está na ida ou na volta:
um aqui será feliz;
mas outro ali se revolta.
Água Branca, Baixão do Coco:
onde o senso se embota?

Muita sede tinha Cândido.
Muito mais tinham seus filhos:
nenhum deles cá ficou.
Romeiros ou andarilhos?
Buscadores de outras águas:
estudo, trabalho, brilho.

Vai embora Cândido
vai embora pra Brasília!
– Vou não, que lá faz frio.
Se quiser, que vá, família!
Fica em Brasília, Cândido!
– Eu, não, que meu sol não brilha.

Quem é Cândido Bezerra?
Fugitivo ou benfazejo?
Essas medidas não medem
esse bravo sertanejo.
Quem é Cândido Bezerra?
Ele é a presa do desejo.

Quem é Cândido Bezerra?
Pregador ou anjo pagão?
Pegado no seu rosário,
em fé e firme oração.
Vence a fome e a miséria;
vence o fogo do sertão.

Mas nadinha o define:
título nem sobrenome.
O homem é nesta terra
o que planta, colhe e come.
Quem é Cândido Bezerra?
É o surge quando some.

Mas se quer mesmo saber
puxe por sua memória:
nada mais fez na vida:
só colecionar histórias.
Contar os feitos da terra
era e é sua vitória.

Lá vai Cândido Bezerra
com razão e sem razão,
levando em sua lembrança
um canto, pura emoção.
Será um vaqueiro voador?
Não: Cândido canta sempre
pra fugir de sua dor.

Cândido é de marmeleiros?
O seu tronco é de mofumbo?
Será Cândido aroeira?
Ou arribação sem rumo?
Nem pedra, nem cipó verde
Nó de juazeiro é seu prumo.

No Riacho Seco nasceu
aqui viveu e sofreu;
daqui nunca se apartou;
quando partiu, voltou.
A Casa Grande está nele:
mourão que não desabou.

Canta, Cândido Bezerra
nos noventa e seis anos.
Canta que a vida é tirana;
canta que o riso é engano.
Canta porque hoje é seca
porém chove para o ano

João Bosco Bezerra Bonfim, em 11/03/2007 

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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