A fome que não sai no jornal – a dissertação do livro

por João Bosco Bezerra Bonfim

Artes Verbais, Literatura de Cordel, Discurso, Letramento Literário, Narrativas, Poesia


Da tese, editamos o livro. Para ler a tese, clique AQUI.

Já se vão doze anos do trabalho acadêmico. Passaram-se muitas políticas públicas sobre o tema. Mas a fome já se foi?

 

INTRODUÇÃO
Nesta pesquisa, tomamos como objeto de estudo as matérias
sobre a “fome” veiculadas na imprensa para verificar o papel
de tais matérias no contexto do País no período abrangido
pela pesquisa, a partir da perspectiva da análise de discurso
(Fairclough 1998: p. 64). A escolha do tema deveu-se ao fato
de a questão da fome, entre 1993 e 1995, ter passado a
receber um destaque inédito na imprensa brasileira, não
obstante essa não ser uma questão nova entre nós (Castro,
1980: passim e Gohn, 1995: passim). Tomamos como ponto de
partida o fato de que a fome no Brasil é ocasionada pela má
distribuição de renda, visto que suas causas têm raízes na
falta de recursos das pessoas para comprarem comida (Mapa da
Fome, 1993: passim) e não em alguma catástrofe natural ou na
insuficiência de alimentos produzidos no País. Portanto, a
fome no Brasil, país de economia capitalista e regime liberal
(Demo, 1995: p. 35), é decorrente da assimetria na
distribuição de recursos, fato que pode levar a um conflito
pela distribuição de recursos e de poder (Gohn, 1995:
passim). E, como essa prática social aponta para a existência
de assimetrias, é importante verificar como o discurso
utilizado pela mídia representa os eventos envolvidos.
Procuramos verificar os potenciais aspectos ideológicos
desse discurso da imprensa, uma vez que a comunicação de
massa tem um impacto central na análise da ideologia
(Thompson 1990: p. 341). Para Thompson o que faz a sociedade
contemporânea “moderna” é a presença da mídia, que,
juntamente com outras instituições – como o capitalismo
3industrial – tem sido responsável pela constituição do mundo
como ele é hoje. Se vivemos num mundo cada vez mais
interligado economicamente, isso se deve em grande parte ao
papel exercido pela indústria da mídia. Responsável pela
veiculação de formas simbólicas cruciais para a cultura
moderna, a imprensa, mais que reproduzir dados da realidade,
representa – por meio da linguagem – essa realidade, segundo
escolhas específicas, utilizando-se de mecanismos que lhe são
próprios e que podem, em determinados contextos, contribuir
para a naturalização de crenças, papéis sociais ou
interpretações da realidade ideologizados, ou seja, a
imprensa pode veicular matérias que contribuam para
estabelecer ou sustentar relações de poder, não obstante, por
outro lado, as formas simbólicas por ela veiculadas poderem
servir para contestar posições de poder.
Consideramos, igualmente, que o uso da linguagem é
ideológico se servir para instaurar ou manter assimetrias
permanentes entre pessoas ou grupos sociais (Thompson: 1990:
p. 341). O funcionamento da ideologia na linguagem tem como
principal objetivo tornar naturalizado para os participantes
o que, na verdade, é de interesse de um grupo social, ou
seja, a ideologia leva para o terreno do senso comum
representações sobre o mundo que manifestam o interesse de um
determinado grupo ou classe social, como se fosse algo
neutro, universal ou de interesse de todos.
O corpus foi constituído de textos publicados em jornais
e revistas, nos anos de 1993 a 1995, período em que teve
lugar no Brasil um movimento denominado Ação da Cidadania
contra a Fome, a Miséria e pela Vida, mais conhecido como
Campanha da Fome.
4No primeiro capítulo, apresentamos a teoria da Análise
de Discurso Crítica (ver 1.1. Discurso 1.2. Análise de
Discurso Crítica) e , formulada por Fairclough, em que é
descrita a metodologia; trabalhamos, também, a noção de
ideologia segundo a formulação proposta por Thompson (1995),
segundo a qual as formas simbólicas (textos, falas) podem
servir para estabelecer ou sustentar dominações ou
assimetrias de poder e de distribuição de recursos entre
pessoas, entre pessoas e grupos, entre grupos e Estados, e
assim por diante. Ainda no primeiro capítulo, expomos os
procedimentos metodológicos (ver 1.4).
No segundo capítulo, exploramos a prática discursiva da
imprensa, levando em conta a natureza dos eventos
discursivos, a produção, distribuição e consumo dos textos,
bem como a prática social (interesses econômicos e políticos)
associados à indústria da mídia, particularmente da imprensa.
No terceiro capítulo, investigamos a prática social em
torno da fome, baseando-nos, principalmente nos escritos de
Josué de Castro (Geografia da Fome, 1980), verificando como a
“fome”, enquanto objeto de discurso, foi construída e é
tratada pela ciência, pelas organizações da sociedade civil e
pelo governo.
No quarto e último capítulo, nos debruçamos sobre a
análise dos textos selecionados. Entre as muitas marcas
lingüísticas inicialmente levantadas – entre elas a
modalidade, as marcas de heterogeneidade, os processos
verbais, uso de figuras de linguagem –, optamos por centrar
5o estudo na polifonia, no modo de representar participantes
nos eventos comunicativos e no léxico.
Nos anexos, estão a relação de textos lidos, a relação
de textos do corpus e cada um dos textos do corpus.
Esperamos que os resultados da pesquisa possam
contribuir para os estudos da linguagem da mídia, numa
perspectiva crítica; esperamos, também, que as informações e
os resultados aqui colhidos possam servir para contribuir
para práticas de formação de leitores dos meios de
comunicação de massa, particularmente dos jornais e revistas.

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About João Bosco Bezerra Bonfim

Poeta, pesquisador de linguística e literatura. Mora em Brasília, DF, Brasil. Autor de mais de vinte livros: análise de discurso, poesia, literatura infantojuvenil, cordéis. Nasceu na Barra do Riacho Seco, município de Novo Oriente, Ceará, em 1961. Reside em Brasília desde 1972. Professor de literatura, mestre e doutor em linguística, na área de análise do discurso. Ministra oficinas para mediadores de leitura; faz leituras públicas de suas obras; participa de eventos literários em todo o Brasil.

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